terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Entrevista com o Rev. Arcipreste Alexis Peña-Alfaro - parte 3

Arc. Alexis servindo a Sagrada Liturgia
Paróquia da Dormição da Mãe de Deus - Recife
Nesta terceira parte da entrevista com o Arcipreste Alexis, algumas questões parecerão interessantes aos sedentos em espiritualidade ortodoxa, principal e especialmente o relato de sua estadia na Santa Montanha do Athos. Contamos também com algumas informações sobre a ação missionária da Igreja Ortodoxa Sérvia na América Latina.

Confira também a parte 1 & a parte 2 da Entrevista.


AuroraOrtodoxia: Ficamos sabendo que o senhor teve a grande benção de conhecer o “Jardim da Mãe de Deus” – a Santa Montanha do Athos. Por favor, conte-nos um pouco desta experiência.
Arcipreste Alexis: Sobre o Monte Athos, a verdade é que nunca imaginei que pudesse um dia conhecer a Santa Montanha. Mas aconteceu de uma forma inesperada. Morei um ano na Espanha quando escolhi a cidade de Barcelona para fazer um ano de Doutorado em Linguística, em virtude da Igreja Ortodoxa Sérvia ter uma excelente paróquia nesta cidade, no período de 2003 a setembro de 2004.

Neste período também visitei o Monastério de Godoncourt na França onde residem um grupo de monjas brasileiras e algumas delas foram minhas fiéis em Aldeia, Recife. Por ocasião da Páscoa decidi visitá-las e celebrar com elas a Grande Festa. Conheci um Padre francês que era o Capelão deste Monastério, e ele me incentivou a visitar Monte Athos. Falou que tinha um irmão no Sagrado Monastério de Vatopedi e era fácil conseguir com ele um convite e a entrada na Santa Montanha.

MONTE ATHOS
Jardim da Toda-Santa Deípara

Voltando a Barcelona aguardei o contato deste Padre francês que nunca chegou. Mas na Paróquia Sérvia de Barcelona havia um fiel grego (Christos) que visitava a Santa Montanha. Foi ele quem conseguiu o apoio necessário para realizar a visita em julho de 2004. Antes passei por Belgrado, pela Sérvia, e conheci a Catedral de São Savas, assistindo também ao Patriarca Pavle, num sábado em que celebrava em sua residência. No final, recebi sua benção patriarcal. Nesta visita a Sérvia pude venerar as relíquias de São Nikolai Velimirovitch e São Justin Popovitch, como também visitar vários monastérios.

A seguinte escala foi Tessalônica onde pude venerar as Santas relíquias de São Gregório Palamas e várias igrejas nesta cidade evangelizada pelo Apóstolo São Paulo. Ai recebi um documento que autoriza o ponto de embarque ao Monte Athos em Ouranópolis [Diamonitirion]. A viagem de Tessalônica até Ouranópolis feita de ônibus dura três horas.
Em Ouranópolis seguimos de barco para Monte Athos. A emoção é muito grande, a beleza do mar e a vista da Santa Montanha é indescritível... por tudo que representa e tudo que sabemos dela. Depois do Santo Sepulcro é o lugar mais santo para a Ortodoxia, o Jardim da Virgem.

Primeira visita ao Monte Athos
2004

Monte Athos [os gregos a chamam de Agiós Orós, Santa Montanha] é uma península à qual somente se chega por navio e abriga vinte monastérios, doze Skitis, pequenos monastérios e mais de 250 kélias, pequenas comunidades de monges hesicastas que praticam o silêncio. O Monte Athos faz parte da península de Calcídica na Grécia, e tem uma extensão de 335 quilômetros quadrados cuja capital administrativa é Kayres.

Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, faz parte da República da Grécia, sendo um Estado Monástico Autônomo com governo próprio, um Conselho escolhido pelos representantes dos Monastérios e sob a jurisdição do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

Aparecem os primeiros Monastérios: Docheiariou, Xenofontes, São Panteleimon, monastério russo, o imponente Simonos Petras e finalmente chego ao São Gregoriou onde passei toda minha estadia de seis dias. Optei por me concentrar na oração. Os monges estranharam o fato de ter ficado somente neste monastério, pois geralmente os visitantes são sempre peregrinos desejosos em conhecer o maior número de monastérios possível, o que é natural dada a riqueza que cada um deles tem a oferecer em termos de ícones, capelas e relíquias.

Monastério Docheiariou

Monastério Xenofonte

Monastério São Panteleimon
Em São Gregoriou, fui às Vésperas e fiz a segunda refeição do dia [somente duas refeições por dia, as 9h depois da Liturgia e as 19h depois das Vésperas]. Pude comungar e fui recebido pelo Abade Georgios, que me deu a benção para traduzir sua obra Theosis para o português e publicá-la como livro, me deu também um belo livro de fotografias do Monastério e muitos ícones em estampa para os fiéis.

Mas a estadia em São Gregoriou foi abençoada, obtive graças pessoais e fui convidado a celebrar no dia 10 de julho a primeira liturgia no Monte Athos. Ao todo,  celebrei três Liturgias cantando as ecfonéses em grego, espanhol, português e catalão.

Sai muito triste de lá deixando vários amigos e com a esperança de voltar um dia confiando em Deus poder realizar este sonho e reencontrar este santo lugar.

Monastério Grigoriou

A segunda visita, o sonhado retorno a Santa Montanha ocorreu ao final de julho de 2013 e desta vez reencontrei o São Gregoriou e o meu amigo o monge Damianos, um grego nascido em Londres. conversamos longamente, por cinco horas seguidas, atualizando estes mais de nove anos de intervalo. Reencontrei o Abade Georgios bastante doente e ofereci-lhe o livro Theosis que prometera publicar em português na visita passada.

Desta vez pude visitar o monastério vizinho, Simonos Petras, subindo a pé quase uma hora. Chegando por lá fui recebido pelo Hieromonge Makarios, francês. Por sinal o Monastério de Solan (em Avignon, na França), onde temos a Irma Iosifia, monja brasileira, que batizei em Recife, e cujo Pai Espiritual e Fundador é o renomado e mui meu amigo, o Arquimandrita Placide Deseille é um Metóquion (dependência) de Simonos Petras.


Monastério Simonos Petras

Logo depois pude visitar o Sagrado Monastério sérvio de Hilandar que no ano 2004 não pude conhecer por causa do incêndio ocorrido em março daquele ano, interditando as visitas. Conhecer este santo lugar foi uma benção muito grande, pois foi fundado por São Savas no século XIII. Este é um dos lugares mais inspiradores da espiritualidade e santidade do povo sérvio e ortodoxo em geral. Dou graças a Deus por tudo isto.

AuroraOrtodoxia: Como se desenvolvem as missões sérvias da América Latina?
Arcipreste Alexis: Sobre as missões ortodoxas sérvias na América Latina devemos lembrar que apenas três anos atrás foi criada a Diocese de Buenos Aires e das Américas do Sul e Central. Por outro lado, temos que reconhecer a divida histórica da Ortodoxia para com os povos latino americanos, na medida em que, muito pouco foi feito em prol do trabalho missionário.

Sabemos que desde o início da migração de comunidades ortodoxas, no final do séc. XIX e inicio do séc. XX, estas populações com a árdua tarefa de sobrevivência e adaptação a realidade local tiveram como tarefa principal a manutenção da fé e por isto eram bastante fechadas para o público local. Fora isto, as línguas usadas eram basicamente as línguas de origem.

Como resultado, poucas pessoas locais conseguiram tornar-se membros da Igreja Ortodoxa, quanto não, muitos ortodoxos por falta da presença da Igreja nestes territórios integraram-se principalmente à Igreja Católico-Romana.

Do ponto de vista do propósito de criação desta nova diocese e por reiteradas declarações do nosso Metropolita Amfilohije, existe o reconhecimento desta deficiência histórica e também o interesse em realizar um trabalho missionário na América Latina.

Sagrada Liturgia em Aldeia
Segunda visita pastoral do Metropolita Amfilohije a Recife - set. 2012

A melhor prova disto foram sem dúvida as visitas pastorais que nosso Metropolita vem realizando a este continente há três anos. Com isto temos o seguinte quadro:

- Argentina: Consolidação das comunidades e paróquias sérvias, por isto é a sede da Diocese, com paróquias em Buenos Aires: Catedral da Natividade da Mãe de Deus e São Savas da Sérvia; na província de Chaco, Paróquia San Nicolás; em General Madariaga - Província de Buenos Aires - Paróquia São Pedro de Tsetinhe; em La Plata paróquia de San Jorge.


Catedral da Natividade da Mãe de Deus
Celebração com Hierarcas russos (D. Platão e D. João) e grego (D. Tarásios)
Buenos Aires - 2011

Igreja de San Nicolas - Chaco


- Brasil: Paróquias em Pernambuco, em Recife, Paróquia da Dormição da Mãe de Deus; em Caruaru, Paróquia de São João Crisóstomo; em Belo Jardim, Paróquia de Santo Antônio o Grande; aos cuidados de Pe. Jairo; Monastério da Santíssima Trindade em Aldeia - Camaragibe com o Higumeno Pedro e Pe. Elias. No estado de São Paulo, cidade de Campinas, Paróquia Missionária São Pedro e São Paulo, com Padre Marko Obradovitch.

Metropolita Amfilohije na Paróquia da Dormição da Mãe de Deus
Recife - 2011


- Venezuela: Caracas, Paróquia San Jorge; em Maracay, Paróquia de San Juan Bautista. [sem sacerdote].

- Chile, em Santiago Paróquia de San Nikolai de Jitcha, com Padre Dushan Mihailovitch.

- Equador: em Guayaquil Paróquia de la Anunciación de La Madre de Dios. [responsável Jacobo Touma].

Equador - Guayaquil

- Peru:  Missão em Lima.

- República Dominicana: Missão em Bavaro.

-Colômbia: Medellín: Paróquia de la Santísima Trinidad [Hieromonge Simeón, colombiano]

Hieromonge Simeon no Monastério de Ostrog
Montenegro 2014

Tonsura Monástica do Padre Simeon
Monastério de Tsetinhe - Montenegro 2014

-El Salvador [América Central]: Missão em San Salvador e Sonsonate. [Responsável: Hector Rodriguez, salvadorenho].

El Salvador 2013

El Salvador 2014

El Salvador 2014
O trabalho nestes lugares carece ainda de sacerdotes e estrutura financeira que são duas das tarefas principais que a Diocese esta cuidando no momento para sanar. Considero que o mais importante passo foi dado, a criação da Diocese [espera a eleição do Bispo local], a definição do objetivo de fazer missão nestas terras, agora trabalhar e orar para fazer a vontade de Deus.

AuroraOrtodoxia: A partir desta experiência, como o senhor concebe a Ortodoxia na América Latina e no Brasil?
Arcipreste Alexis: A Ortodoxia na América Latina, no meu modo de entender poderá desenvolver-se dentro de um cenário bastante desfavorável. Existe uma polarização cada vez maior entre o catolicismo romano, que a cada dia perde terreno, e o protestantismo, principalmente o pentecostalismo, bastante ativo nestes países.

O protestantismo pentecostal com a sua fragmentação e pulverização da infinidade de denominações criou uma oferta muito grande de “igrejas” o que confunde o público.
Por outro lado, a Ortodoxia é muito desconhecida e por isto desperta interesse em alguns grupos que de uma forma sincera buscam conhecer melhor a história da Igreja e gostam de estudar as características da Igreja primitiva ou demonstram interesse pela Liturgia ou mesmo pelos ícones e a musica litúrgica. Estes são uma minoria que sente necessidade de uma espiritualidade mais profunda e menos superficial e buscam, sobretudo, uma teologia e doutrina menos flutuante e sujeita a tantas inovações que deformam a identidade religiosa.

Na prática, estes cristãos na sua grande maioria não demonstram nem mesmo curiosidade pelo Cristianismo Oriental e consideram as Liturgias longas, cansativas e não lhes apetecem as quaresmas com seus dias de jejum.

Os apelos dos cultos pentecostais e as inovações católicas criaram grandes contingentes de fieis avessos a um culto teocêntrico, sem apelos emocionais e a busca de recompensas matérias, sociais e emocionais torna a Ortodoxia pouco atraente.

Portanto, considero que a adesão à Ortodoxia será sempre pequena e minoritária o que por outro lado, da nossa parte exige um esforço muito grande para fazer a Ortodoxia mais conhecida onde cabe um trabalho missionário mais eficiente e organizado. Neste ponto temos que reconhecer que temos feito menos do que devíamos e podíamos fazer.

sábado, 29 de novembro de 2014

Documentário Mosteiro Valaam - Rússia

Documentário sobre o Mosteiro de Vaalam na Rússia em francês com legendas em inglês.

A ilha de Valaam (russo: Валаам or Валаамский архипелаг), também conhecida historicamente pelo nome finlandês de Valamo, é um arquipélago na porção norte do Lago Ladoga, dentro da República da Carélia, na Federação Russa. A área total das suas mais de 50 ilhas é de 36 km². A maior delas também é chamada de Valaam. É conhecida por ser o local do Mosteiro de Valaam que remonta ao séc. XIV, e por sua beleza natural. No séc. XII, as ilhas formaram parte da República de Novgorod. No séc. XVII, foram capturadas pela Suécia durante o Tempo de Dificuldades, mas a Rússia a reconquistou menos de um século depois. Quando o Grão-Ducado da Finlândia foi estabelecido, no princípio do séc. XIX, como parte integrante do Império Russo, Alexandre I da Rússia fez Valaam parte da Finlândia. Em 1917, Valaam se tornou parte da Finlândia independente, mas foi readquirida pela União Soviética durante a Guerra de Inverno e a Guerra de Continuação.
O nome da ilha vem da palavra ugro-fínica valamo, que quer dizer lugar alto, montanha. O clima e a história natural da ilha são únicos devido à sua posição no lago Ladoga. A primavera começa no começo de março e um verão típico em Valaam consiste em 30-35 dias ensolarados, o que já é mais do que em terra firme. A temperatura média em julho é de 17 °C. O inverno e a neve chegam no começo de dezembro. No começo de fevereiro a estrada de gelo para a cidade mais próxima, Sortavala (42 km) fica transitável. A temperatura média em fevereiro é menos 8 °C.
Mais de 480 espécies de plantas crescem na ilha, muitas das quais cultivadas pelos monges. A ilha é coberta por árvores coníferas, cerca de 65% das quais são pinheiros. A ilha foi visitada repetidamente pelos imperadores Alexandre I, Alexandre II, e outros membros da família imperial. Outros visitantes famosos incluem Tchaikovsky e Dmitri Mendeleiev.
A ilha é permanentemente habitada por monges e famílias. Em 1999, havia cerca de 600 residentes na ilha principal; inclusive pessoal do Exército, trabalhadores de restauração, guias turísticos e monges. Há um jardim da infância, um ginásia de artes e esportes, uma escola e um centro médico. A comunidade de Valaam, no momento, não apresenta qualquer status administrativo.
Durante o verão, a ilha principal pode ser alcançada por barcos de passeio que deixam S. Petersburgo à noite, e chegam na ilha na manhã seguinte.
O presidente da Rússia tem uma dacha em uma das ilhas do arquipélago, mas a sua localização precisa não é oficialmente divulgada.

fonte: Wikipédia

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Entrevista com o Rev. Arcipreste Alexis Peña-Alfaro - parte 2


Arcipreste Alexis 
Nesta segunda parte da Entrevista com o Arcipreste Alexis Peña-Alfaro, ficaremos por dentro de elementos da atualidade da vida da Igreja Ortodoxa em geral através do prisma de um sacerdote ortodoxo e profissional do ensino.

AuroraOrtodoxia: Segundo as informações que dispomos, a Igreja Sérvia realizou uma de suas Assembleias (Sábor) para as Dioceses das Américas do Norte e do Sul nos dias 05-07 de agosto 2014, em Alhambra na Califórnia. Este tipo de evento é muito comum nos E.U.A, país que apesar de não-ortodoxo tem uma grande experiência de encontros pan-ortodoxos e um caráter missionário bem apurado. O que o senhor poderia nos dizer sobre estes encontros. Na sua opinião, o Brasil poderia fazer uso desta mesma experiência?

Arcipreste Alexis: De fato, os Estados Unidos pela sua própria história, foram fundados por colonos ingleses que buscavam liberdade de culto e eles tem uma cultura onde apesar de tudo o trabalho religioso faz parte da sua cultura nacional e da sua vida social.

Devemos lembrar que a presença da Ortodoxia começou com um trabalho missionário de São Germano (Herman) do Alasca, primeiro Santo ortodoxo canonizado nas Américas. A presença ortodoxa nos E.U.A é muito forte e muitas jurisdições canônicas foram estabelecidas no seu território: sérvios, russos, gregos, antioquenos, ucranianos, romenos, búlgaros entre outras. Estas migrações principalmente de fundo econômico e em virtude das duas Grandes Guerras Mundiais que levaram grandes contingentes de ortodoxos a esta terra.

Nos E.U.A existem muitas paróquias, seminários e toda uma estrutura que oferece suporte a Igreja e tem desenvolvido um trabalho firme e sustentável que permitiu um grande crescimento e sobretudo um fenômeno bastante notável, a adesão de grandes contingentes de diversas igrejas protestantes, de católicos, de episcopais, de judeus e até de pessoas não cristãos [budistas, hindus e muçulmanos].

Por outro lado, as Igrejas Ortodoxas têm realizado esforços para unificar o trabalho das várias jurisdições através de órgãos como o SCOBA que é um órgão de consultas das igrejas e de reuniões e trabalhos conjuntos. Ao mesmo tempo, a relação entre as igrejas é muito intensa e estreita, pois com frequência os hierarcas são convidados a participar dos eventos locais com a presença das igrejas irmãs.

Arcipreste Alexis (Peña) em companhia de Arcipreste Rafael (Queiroz)
e outros clérigos no Sábor deste ano em Alhambra

No último Sábor, ao qual tivemos a graça de participar, os convidados de honra foram o Arcebispo Dimitrios do Patriarcado Ecumênico e outro Bispo grego. Portanto, a experiência da Ortodoxia na América é bastante rica nos relacionamentos eclesiásticos, sejam no nível da hierarquia, dos clérigos, dos organismos eclesiais como dos fiéis.


Consideramos que esta experiência pode sim ser bastante estimulante para o nosso trabalho na América do Sul.

AuroraOrtodoxia: Sabemos que o senhor é professor universitário em Instituições de Ensino tanto Católicas como Protestantes, em cadeias como a Patrologia, por exemplo. Como o brasileiro concebe a espiritualidade dos Santos Padres através do prisma cristão ortodoxo?

Arcipreste Alexis: Tive a graça de ser convidado a ministrar algumas disciplinas em escolas de teologia tanto católicas quanto protestantes desde 2005, quando iniciei esta experiência pedagógica e pude enriquecer a minha perspectiva teológica sobre o valor e profundidade da Tradição ortodoxa que se sacia principalmente das fontes patrísticas.

É bastante curioso comprovar que aprende-se muito com isto, não apenas com os conteúdos dos ensinamentos dos Santos Padres da Igreja, mas com a descoberta desta perspectiva para aqueles que não a conhecem ou não aceitam [no caso protestante].

Explico melhor isto. No caso dos católico-romanos iniciei no Seminário Franciscano de Olinda para turmas de seminaristas que se preparavam para o sacerdócio. Entre eles a Patrologia é bastante desconhecida, pouco usada. Considero que a teologia romana quanto a protestante, vivem uma crise de identidade justamente por falta das raízes históricas e espirituais do esquecimento dos ensinamentos dos Santos Padres e da perda da Santa Tradição.

Os ensinamentos dos Santos Padres são vistos em geral como um passado histórico, pois estão, na minha modesta opinião, muito presos a ideia de modernização que tanto seduz os contemporâneos. A perspectiva racionalista retira espaço para espiritualidade e transcendência que encontramos nos sábios ensinamentos que os Santos Padres nos legaram.

Os teólogos modernos caíram na armadilha de serem os “sujeitos” da sua teologia e não aceitam ser ensinados pelos antigos mestres. Outro aspecto grave desta teologia é sua perspectiva historicista e imanentista; ou seja, acreditar num Jesus puramente histórico e humano, onde a fé perde as suas raízes e sua perspectiva transcendente. O resultado é uma crise de fé, perdidos nos diversos caminhos humanistas por causa da troca que fizeram, deixaram a fé e se apoiaram nas ciências humanas.

De outro lado, para os protestantes é difícil aceitar a Tradição, pois esta fora dos seus ensinamentos, a ignoram e desconhecem. Na minha experiência num seminário protestante que me convidou para ensinar a perspectiva ortodoxa, que este grupo em particular reconhece como autêntica e legitima teologia ortodoxa. Pois bem, aqui o desafio é outro, provar que o fundamento patrístico tem como base a Escritura Sagrada. A ênfase é mostrar a fragmentação doutrinal, a insuficiência da escritura e a perspectiva espiritual acima da letra que mata.

Sagrada Liturgia em Aldeia (Recife)
Clérigos brasileiros da Eparquia Ortodoxa do Patriarcado Sérvio

Em ambos os casos, considero que o desafio da Tradição é superado com louvor, pois estes descobrem algo que desconhecem e sobretudo, a comprovação de que os fundamentos da Tradição Ortodoxa são também bíblicos. Portanto, é enriquecedor aprender com as dificuldades deles, entender sua perspectiva, mostrar-lhes os modelos e paradigmas teológicos que eles utilizam e ai descobrem as limitações de seu modo de pensar a teologia, o texto sagrado, e a espiritualidade.

Como resultado sabemos que os Santos Padres fizeram a experiência do Espírito Santo na Igreja e que esta guarda essa experiência com a qual nos aprendemos e nos desenvolvemos para um dia sermos cristão de verdade. Por tudo isto, o valor da Tradição como realidade viva é inestimável. Sou grato a todos eles, católicos e protestantes pela oportunidade que me deram de aprender junto com eles o valor da Tradição e que não somos donos da Verdade, mas suas testemunhas, apenas isso, graças a Deus que nos confiou esta oportunidade.


AuroraOrtodoxia: Fale-nos um pouco sobre suas obras e sobre o projeto das Edições ‘São Tiago d´Alfeu e Santo Estevão, Déspota Sérvio’.

Arcipreste Alexis: O meu primeiro livro foi publicado em 1993, com o título de “Os Seguidores de Baco” pela Editora Mercurio de São Paulo. Trata-se de Dissertação de Mestrado que fiz na UFPB na área de Alcoología em Psicologia Social. Mesmo sendo um trabalho na área da Psicologia a proposta deste trabalho foi investigar o conteúdo religioso do tratamento dos Alcoólicos Anônimos [AA] através da análise do mito de Dionísio que para os gregos era o deus da bebida. A loucura da embriaguez para os gregos era um castigo de Hera e somente foi curada por um rito religioso.

O segundo livro foi a minha Tese de Doutorado, publicado em 2006 realizado na UFPE com estadia na Universitat Pompeu Fabra de Barcelona, na área de Linguística e particularmente da Análise do Discurso no curso de Letras. O título da Tese é “Estratégias de Persuasão da Teologia da Prosperidade da Igreja Universal”, no entanto, o título do livro foi: “Ou dá o Dízimo ou desce ao Inferno” Trata-se de uma análise não teológica mas linguística sobre o uso da linguagem e de como se manipulam as pessoas para conseguir que elas acreditem na prosperidade e nas curas pelas quais gastam muito dinheiro nos cultos da Igreja Universal.

Arcipreste Alexis com Metropolita Amfilohije e outros clérigos
set. 2012 - Recife

O terceiro livro foi escrito em 2007, em parceria com o Pe. Jairo e o Prof. Diego Carrero em comemoração dos 1600 anos do falecimento de São João Crisóstomo e tem como título “Vida e Obra de São João Crisóstomo”. Nele apresentamos uma perspectiva da vida do Santo e um resumo da sua bibliografia. Alguns textos foram comentados, sua interpretação da oração do Pai Nosso, o Sacerdócio, a importância dos Santos Padres da Igreja entre outros artigos.

O quarto livro foi uma tradução da obra Theosis, publicada em 2009, do recém-falecido Arquimandrita Georgios (Kapsanis), Abade do Sagrado Monastério de São Gregoriou de Monte Athos quem me conferiu a benção para traduzir esta obra ao público brasileiro em português [foi usada uma versão espanhola] O tema deste livro é sobre o propósito da vida cristã: a deificação e santificação do cristão. A teologia bizantina aprecia bastante este tema e usa como referencia São Gregório Palamas com sua doutrina das “energias incriadas” que fundamentam toda a possibilidade da graça operar na vida concreta do cristão.

Arc. Alexis Peña-Alfaro, Arc. Vasily Gelevan e Monja Rebeca
Lançamento do livro 'São Savas da Sérvia'
RJ 2012

O quinto livro tem como título: “Cristo o Amigo do Homem” publicado em 2011, e tem como tema uma compreensão dogmática e doutrinal de porque Cristo é amigo da humanidade. A teologia ortodoxa sérvia dá uma ênfase toda especial ao tema do Deus-Homem e explica a relação misericordiosa de Deus pelo homem apesar do pecado e que Deus jamais retira sua amizade. Cristo encarnaria mesmo sem que o homem tivesse pecado, ou seja, a visão jurídica da salvação perde seu sentido legal e ganha uma perspectiva da Filantropia divina. Este trabalho é a primeira parte de uma trilogia dedicada ao tema da Filantropia divina.

O sexto livro “Amigos de Deus”, a segunda parte da trilogia, foi publicado em 2012, e tem como tema um estudo dos personagens bíblicos que conheceram a amizade divina, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Vemos concretamente esta relação de amizade que nos serve de modelo real e efetivo da proposta divina de amizade pelos homens.

O sétimo livro é “O Homem Interior”, a terceira parte da trilogia sobre a amizade divina, Foi concebido durante uma visita no mês de julho de 2013 ao Monte Athos e especificamente no Sagrado Monastério de Simonos Petras. Publicado em dezembro do mesmo ano. Tem como tema uma referência bíblica da Epístola aos Romanos e a I Carta de São Pedro onde se faz menção ao homem interior ou oculto, tal como São Pedro o chama. Ao mesmo, tempo usamos uma interpretação de Orígenes da sua obra “Comentários sobre Gênesis”, onde o autor fala da criação do homem interior como sendo a parte espiritual do homem.

Pe. Sérgio Silva (Igreja Ortodoxa Russa), Presbitéria Maria (esposa Arc. Alexis),
Presbitéria Cláudia Fróes e Arcipreste Alexis
no lançamento do livro 'São Savas da Sérvia', no Pátio Paroquial
Paróquia Ortodoxa Russa Sta. Mártir Zenáide - RJ (2012)

Quanto ao projeto do selo editorial 'São Tiago d´Alfeu e Santo Estevão, Déspota Sérvio' foi uma iniciativa do Metropolita Amfilohije com o objetivo de divulgar a Fé Ortodoxa e oferecer ao público brasileiro o acesso a algumas obras. Nossa primeira iniciativa foi publicar a Vida de São Savas, com tradução da Monja Rebeca, publicado no ano de 2012.

Fiquei como responsável para o Brasil desta iniciativa editorial e os dois últimos livros meus foram publicados com a benção e estímulo do nosso Metropolita o que nos permite dizer que já temos três livros publicados por este sêlo. Confiamos que no futuro possamos realizar outras publicações de maior envergadura e mais importantes para continuar divulgando a Fé Ortodoxa.