sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Death to the World: Do Punk à Ortodoxia (Entrevista)


Conte-nos um pouco sobre como Death to the World começou. Justin Marler (Abestos Death, Sleep) ainda está envolvido?
Death to the World foi criado por punks convertidos a fé Ortodoxa Oriental que se tornaram monges em um mosteiro no norte da Califórnia. Eles começaram a publicação para chegar aos velhos amigos que ainda estavam tragados pela cena punk. Sim, uma dessas primeiras pessoas era Justin Marler, da banda Sleep, mas ele não é mais um editor principal. Nós ainda enviamos zines e ele está trabalhando conosco para re-imprimir o livro "Youth of the Apocalypse" que foi impresso pela primeira vez durante os primeiros anos da existência do Death to the World.
Na sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados a pela nossa juventude do século XXI?
Como nosso Padre Serafim Rose disse uma vez, "Nossa vida anormal de hoje pode ser caracterizada como mimada, "super protegida". Desde a infância a criança de hoje é tratada, como regra geral, como um pequeno deus ou deusa na família: seus caprichos são atendidos, seus desejos são cumpridos, ele é cercado por brinquedos, de diversões, conforto; ele não é treinado e educado de acordo com os rigorosos princípios do comportamento Cristão, ao contrário, deixa-se desenvolver de maneira que satisfaça suas inclinações". (The Orthodox World View). Nós somos a geração "MEU", os narcisistas. Vivemos em um mundo de fantasia, um Disneyworld, desde a juventude, raramente somos dirigidos para a seriedade da vida e para o que o mundo exige de nossas almas. Assim, quando crescemos, somos atormentados pelo mesmo desejo de nos cercar de tantas distrações e aparelhos como pudermos. A vida no século 19 foi drasticamente diferente. Hoje, ao invés de uma chama cintilante de uma vela de oração, que em outros tempos servia para iluminar nossas casas, é a televisão que emite sua "des-luminada" luz. Nossos valores já não são mais ditados pelas palavras de Cristo ou pela vida de Seus Santos, os valores são regurgitados através deste aparelho brilhante. As salas costumavam ser usadas para conversações sobre Deus e uns aos outros, agora vejo o que temos feito! Nos cercamos em volta da televisão! Quando isto aconteceu?! As crianças andam por aí com as cabeças coladas em telefones celulares; preferem fones tocando música alta nos ouvidos do que uma conversação séria. Onde tudo isso nos levou? Nós que somos tão superiores aos antigos por causa de nossos "avanços". Nós esquecemos a santidade; paramos de lutar pela sabedoria. Muitas almas hoje vivem do choque elétrico que sai dos nossos computadores e não pela virtude ou pureza. Crimes sexuais, assassinatos, suicídios, etc acontecem nas ruas de hoje como matilhas de cães selvagens, consumindo muitos, alguns que conheço pessoalmente. Toda nossa sociedade e a forma como ela está estruturada é um desafio para a juventude de hoje. Um monge nos primeiros séculos do cristianismo perguntou uma vez ao mais velho, "Será que nos últimos tempos, os Cristãos poderão ressuscitar os mortos ou realizar milagres?" O ancião respondeu-lhe "Será um esforço maior ainda, ser Cristão naqueles tempos". Estes são os tempos em que estamos vivendo; a sociedade que vivemos é demasiadamente anticristã, fazem que nos olhem como estranhos, radicais religiosos, as vezes até mesmo para os cristãos dos nossos dias. Como Santo Antônio, um monge antigo disse uma vez; "Está chegando a hora em que as pessoas irão enlouquecer e quando encontrarem alguém que não é louco, irão atacá-lo, dizendo: "Você é louco, você não é como nós.".”

Muitos veem a subcultura punk, aqueles perdidos nas drogas, com comportamento auto-destrutivo ou niilistas, como "causas perdidas". Você obviamente discorda. Por quê?
Ninguém é uma causa perdida. Como Santa Isabel, a Nova Mártir, disse certa vez: "A imagem de Deus pode ser ofuscada, mas nunca destruída." As vezes, essas subculturas criam uma forte rebelião no indivíduo, mas o problema é que eles não sabem para onde direcioná-la. Eles sabem que o mundo é ruim, mas a rebelião que eles têm é dirigida politicamente, ou algumas vezes, em formas de autodestruição. Death to the World tenta direcionar essa rebelião contra o mundo de uma forma saudável, citamos Santo Isaac da Síria (séc VI d.C) em todas as publicações, "O "mundo" em geral é o nome genérico para todas as paixões [...] Observe para quais dessas paixões você está vivo. Então você vai saber o quão distante você está vivo para o mundo, e quão distante você está morto para ele". Assim, DTTW propaga que quanto mais você morre para seus desejos e quanto mais você corta sua própria vontade, maior a "rebelião" e a rejeição ao mundo. Dessa forma, se torna não apenas uma luta física, mas se desenvolve em uma luta espiritual e interior.
Por que você usa a frase "A Última Verdadeira Rebelião"?
Subculturas atuais estão cheias de jovens que querem lutar pela verdade através da rebelião contra esse mundo. A subcultura punk é uma rebelião, mas é falsa rebelião, pois se alguém segue até o seu fim, encontrará o niilismo completo e o desespero. Essas rebeliões dentro das subculturas podem ser eficazes, mas a verdade pela qual eles estão lutando, geralmente não é a mesma verdade tal como a conhecemos, a Verdade como uma pessoa, como Jesus Cristo. Ao contrário das rebeliões deste mundo, Death to the World é uma rebelião que não é um beco sem saída, é uma aceitação de algo real, algo de outro mundo. É por isso que é "A Última Verdadeira Rebelião", porque é a única verdadeira.

Death to the World muitas vezes destaca sobre mártires e santos da Fé Ortodoxa. Por que histórias sobre mártires parecem ter alguma ressonância com o seu público?
As almas das pessoas de hoje que estão buscando pela Verdade estão sufocadas pela nossa sociedade falsa. Os programas de televisão, outdoors, filmes, etc, mais frequentemente não possuem nenhuma boa pessoa para servir de inspiração. Nossa sociedade não apenas é rodeada, mas também é bombardeada pela falsidade todos os dias. Parece triste dizer, mas algum de nós nem sequer temos país que nos sirvam como inspiração. Os santos e mártires se relacionam conosco de uma forma que sentimos que nenhuma outra pessoa poderia. Com suas vidas, eles nos trazem a realidade da vida, a realidade do que significa seguir Cristo de uma forma verdadeira, sem compromisso. As mortes brutais dos Santos, Justino, Inácio, George, Pantaleão, e outros grandes cristãos, durante os primeiros séculos contem algumas das mais incríveis histórias de fé inabalável que uma pessoa pode ler. As vidas dos Santos João de São Francisco, Nikolai do Zhica, Herman do Alaska, Raphael do Brooklyn, e outros santos americanos ou aqueles que viveram durante o nosso tempo, revela-nos como Deus não deixou Sua Igreja, mesmo nestes tempos escuros. Na experiência Ortodoxa, os Santos são reais, vivos, e intercedem por nós diante do trono de Cristo. Eles trazem o céu para próximo de nós através de suas orações e adoração diante de nosso Criador nos Céus. Eles são os "amantes da verdade" que sacrificaram completamente tudo e qualquer coisa terrena, dedicando suas vidas para a Verdade Suprema, que é encontrada no Cristo encarnado. Assim, ao ver essas vidas tão reais, radicais e seus testamentos para a vida além-túmulo, as pessoas veem que nossa "rebelião" não é falsa, mas muito real.
A Fé Ortodoxa tem uma rica tradição de ter belas obras de artes e ícones. Como você incorpora essa tradição em suas publicações?
Iconografia está na Igreja desde seu início. Segundo a tradição, o Apóstolo Lucas foi o primeiro que pintou Cristo e Sua Mãe em uma prancha de madeira retirada da mesa na casa da Virgem Maria onde Cristo comia. Foi proclamado ao longo dos séculos que o ícone é como uma janela para o céu, revelando o mundo vindouro. Por dois mil anos, a Ortodoxia sempre deu uma grande ênfase na adoração a Deus com todo o nosso ser, com todos nossos sentidos, e o ícone é a representação visual da teologia para nós. Em um ícone, a pessoa pode ver toda a salvação; a renovação da natureza humana, a promessa e o brilho do céu, a exaltação da humildade, etc. O ícone intriga as pessoas porque é uma forma de arte que é sagrada, provém de uma tradição apostólica e move as almas das pessoas. Em nossas publicações, usamos muitas representações de ícones e eles ressoam nos corações das pessoas, há algo neles que prendem a atenção do indivíduo. São João Damasceno falou que os ícones eram o Evangelho dos iletrados. É bem verdade, pois, mesmo que uma pessoa possa ler, a sua alma pode ser analfabeta para as coisas espirituais e os ícones podem comunicar o Evangelho a eles.

Muitas igrejas (protestantes, católicos, etc) oferecem o evangelho para jovens utilizando música. O que torna a sua abordagem diferente? Como a sua perspectiva única sobre Cristo apela para os seus leitores?
A Igreja Ortodoxa é a Igreja Cristã mais antiga, traçando suas raízes diretamente aos Apóstolos. Tem existido antes tanto do Catolicismo Romano quanto do Protestantismo, sendo abençoada pelo próprio Cristo, sendo os Apóstolos os primeiros Cristãos Ortodoxos. Pode-se apontar as origens da Igreja Ortodoxa até o tempo de Cristo, mas seria mais apropriado dizer que sempre existiu, como nós exclamamos que nossa Fé "estabeleceu o Universo" (Synodikon Ortodoxo). A Tradição Ortodoxa é muito profunda e não muda desde os primórdios do Cristianismo, mantendo-se em linha com as palavras de São Paulo, quando disse: "...esteja firme e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, ou nossas epístolas" (2 Tess. 2:15). O profundo entendimento do homem e do que significa ser transfigurado através de Cristo têm florescido abundantemente ao longo dos séculos em comunidades monásticas e deu à Igreja um sentido muito espesso e denso do que significa ser cristão neste mundo. Ortodoxia incubou e floresceu no Oriente, preservando os ensinamentos de Cristo e continuar a celebrar a forma mais antiga de cultos cristãos, a Divina Liturgia, que pode ser rastreada até o próprio Apóstolos Tiago, o irmão de Cristo. Eu acho que é isso que nos destaca, o que nos torna únicos para nosso público. Há muitas igreja hoje que oscilam com os tempos, que mudam de ano para ano, dependendo da cultura que os cerca, porque eles acham que irão trazer mais pessoas para dentro. As pessoas veem que a ortodoxia não é assim, ela não muda com o mundo ao seu redor, porque ela é profundamente centrada na vida do mundo por vir, jamais será tragada e está dirigida para o céu. As pessoas que veem a falsidade neste mundo e querem a Ortodoxia porque eles a enxergam como um refúgio que sempre será preservado e firme entre o mundo que já está se desintegrando em torno deles.

Apesar de tudo, você sente que o Death to the World tem sucedido em trazer os jovens para Cristo?
Com a depressão, a tristeza e desconforto que assola a nossa sociedade e as pessoas ao nosso redor, as perspectivas Ortodoxas sobre o sofrimento é uma das principais coisas que o DTTW se relaciona. Os antigos Cristãos e monges do passado viam as lutas e o sofimento como um meio para colocar a nossa carne em sujeição, para aprender a carregar a nossa cruz sem reclamar, tudo, em última análise, se relaciona com o sofrimento de Cristo. Como a nossa sociedade frequentemente varre o sofrimento, o pobre e os miseráveis para baixo do tapete, longe da vista do "civilizado", a Ortodoxia estende a mão para eles e relacionam a um Deus que sofre com eles, não um Deus envolto em uma bonita caixa Americana com um laço no topo. Nós gostamos de falar das coisas como elas são, a vida não deve ser revestida de açúcar. Tanto a alegria e o sofrimento devem ser reconhecidos como parte da nossa viagem em direção a salvação. O sofrimento faz parte da nossa vida que deve ser abraçado por nós com mais frequência, não fugindo dele, mas, infelizmente, nós que crescemos em uma sociedade muito confortável e relaxada temos pouco tempo pra isso, para nosso própria perda. (Ensino Prático sobre a Vida Cristã) Portanto, o sofrimento é dado a nós com amor de Deus, para que pudéssemos lembrar a nossa queda e cultivar dentro de nós um amor mais profundo para o Reino dos Céus. Quando jovens e adultos que estão sofrendo veem as vidas dos Santos e os ortodoxos que carregam seus sofrimentos com alegria, dá-lhes a esperança e a coragem para abraçar e conquistar suas lutas. O coração humano é muito complexo e não pode ser remediado por distração ou por prescrição de medicamentos, é necessário algo mais, algo que o homem e este mundo não pode dar. Quando as pessoas que sofrem vêm a nós, sempre nos humilha ver que estas pessoas em sofrimento estão, por vezes, mais perto de nosso Cristo do que nós. Como nós cantamos para Deus, em um culto chamado Akathist da Ação de Graças, "Tu descendeste para à cama do doente e seu coração comunica Contigo. Tu inspiras a alma com paz no momento de dor e sofrimento. Envias ajuda inesperada. Tu és o confortador. Tu és o amor onisciente. A ti eu canto: Aleluia!"

O que você diria para os nossos leitores, que estão preocupados com a educação dos seus filhos em Cristo nesta geração?
Faça os crescer dentro da verdade. O mundo em torno deles lhes dará muitas contradições e falsas doutrinas, ajude e explique essas coisas para eles. Cultive dentro de si a pureza e amor para com o seu Criador. Seja uma família, comam juntos, rezem juntos, unam suas almas, sua casa deve ser uma pequena capela. Seja direto, em vez de vago sobre coisas como sexo, drogas, etc, para que eles saibam o que essas coisas são e quais as suas consequências, não só do corpo, mas o mais importante, sobre a alma. Ajude-os a abraçar o sofrimento e não os mime, eles vão criar a resistência e atenção para com a alma, em vez de distraí-los com coisas temporais. Acima de tudo, eles precisam de buscar alguma verdade que os façam ser capazes de viver em nossa sociedade anticristã - torne-os amantes da Verdade. Há um excelente livro sobre o chamado, "Raising them Right" por São Theophan o Recluso que disse uma vez que, de todas as obras santas, a educação dos filhos é o mais santo.

Onde é que os leitores interessados ​​saber mais sobre Death to the World ou a Igreja Ortodoxa?
Informações sobre DTTW pode ser visto do nosso site, www.deathtotheworld.com e informações sobre a Fé Ortodoxa podem ser encontrados no www.orthodoxinfo.com, www.stherman.com ou www.ancientfaith.com.

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