quarta-feira, 10 de setembro de 2014

HISTORIA DE UMA RUPTURA - parte III

HISTORIA DE UMA RUPTURA - parte III

Archimandrite Placide Deseille



A RUPTURA DO SÉCULO XI

             O século XI é para o Império bizantino uma verdadeira idade de ouro.  O poder árabe é definitivamente quebrado. Antioquia retorna ao Império, e é por pouco que Jerusalem não é libertada. O tsar búlgaro Simão (893-927), que havia tentado constituir em seu proveito um império romano-búlgaro, depois o tsar Samuel, que se havia revoltado a fim de criar um estado macedônico, tinham sido sucessivamente arrasados, e a Búlgaria tinha re-entrado no Império. A Rússia de Kiev , criatianizada, é rapidamente penetrada pela civilização de Bizâncio. Um esplêndido vôo cultural e espiritual começa no passado do restabelecimento da Ortodoxia em 843, acompanha o desenvolvimento político e econômico do Império.
            Paradoxalmente, aos sucessos de Bizâncio, notadamente sobre o Islam, tiram proveito também o Ocidente e criam as condições favoráveis ao nascimento da Europa ocidental tal qual ela se manterá durante os séculos, com o coroamento em 962 do Santo Império Romano Germânico, e,  em 987, da França capetiene. Mas entre este novo mundo ocidental e o Império romano de Constantinopla, a ruptura espiritual vai se produzir ao longo deste século XI, tão claramente promissor, cisão permanente sem remédio desde então, e cujas consequências foram trágicas para a Europa.
            No ínicio do século XI, o nome do papa não é mais comemorado em Constantinopla nos dípticos, o que significa que a comunhão com ele foi rompida. Era o resultado do longo processo que estudamos. A causa imediata desta ruptura é pouco conhecida; talvez a inserção do Filioque na profissão de fé que o papa Sérgio IV tinha enviado a Constantinopla em 1009 com sua tomada de possessão sinodal da cátedra de Roma, teria sido a razão. Qualquer que tenha sido a razão, durante a sagração do imperador germânico Henrique II (1014), o símbolo a fé foi cantado em Roma com o Filioque.
         Afora o Filioque, um certo número de hábitos latinos chocavam os bizantinos e iriam aumentar o número de assuntos controversos. Um desses hábitos particularmente colocado em questão era o emprego do pão ázimo para a celebração da Eucaristia. Pois que nos primeiros séculos, se utilizava em toda parte pão levedado, desde os séculos VII e VIII se celebrava a Eucaristia no Ocidente com hóstias de pão àzimo, quer dizer sem levedura, como os hebreus o faziam para a páscoa. A linguagem simbólica  tinha então uma extrema importância; fazer uso do pão ázimo, era, aos olhos dos gregos, retornar ao Judaísmo, e negar  a novidade e o cárater espiritual do sacrifício do Cristo com relação aos rituais do Antigo Testamento.
            De outro lado, no século XI, o reforço da autoridade pontifícia que se tinha manifestado no tempo de Nicolau I iria se afirmar com mais vigor ainda. O século X tinha conhecido um enfraquecimento sem precedentes do papado, vítima de facções da aristocracia romana, ou submissa à influência dos imperadores germânicos. Numerosos abusos eram por toda parte introduzidos na Igreja latina: venda das obrigações eclesiásticas, imitação das funções  religiosas por leigos, casamento ou concubinato de padres. Com o pontificado de Leon IX (1047-1054) começa uma verdadeira reforma na Igreja. O novo papa está cercado de homens de valor, geralmente originários da Lorraine, notadamente o cardeal Humberto de Silva Candida. Os reformadores não vêem outros meios de remediar os males da cristandade latina que reforçando o poder e autoridade do papado. E eles estimam que esta autoridade, tal qual eles a concebem, se estende à Igreja universal, quer ela seja latina ou grega.
            Em 1054, um incidente que poderia ter tido uma importância menor foi ocasião de um confronto dramático entre a tradição eclesiástica de Constantinopla e o movimento reformador ocidental.
            Para obter ajuda do papa contra os Normandos que ameaçavam as possessões bizantinas de Itália do Sul, o imperador Constantino Manomaque, pela instigação do latino Agyros que ele tinha estabelecido governador destas regiões, querendo se mostrar conciliante ao olhar de Roma e restabelecer a união, rompida, como vimos, desde os primeiros anos do século. Mas a ação empreendida pelos reformadores latinos na Itália do Sul, em detrimento dos hábitos religiosos bizantinos, inquietaram o patriarca de Constantinopla, Miguel Cérulaire. Os legisladores do papa, entre os quais figurava o intransigente cardeal Humberto de Silva Candida, vindos a Constantinopla para negociar a união, voltam seus olhares para fazer depor pelo imperador o (demasiado) pouco dócil Patriarca. As coisas viraram ao ponto dos legisladores (delegados)  deporem sobre o altar de Santa Sofia uma bula de excomunhão contra Miguel Cérulaire e seus partidários. O Patriarca e seu sÍnodo respondem alguns dias mais tarde excomungando os delegados.
            Dois elementos darão ao gesto precipitado e impensado dos legados  uma disposição que não se podia então apreciar. De um lado eles traziam à tona novamente a questão do Filioque, repreendendo erradamente (injustamente) aos gregos de tê-lo retirado do símbolo da fé; agora a cristandade não-latina tinha sempre considerado esta doutrina como contrária a tradição recebida dos apóstolos. De outro lado, os bizantinos descobriram o plano dos reformadores de estender a autoridade absoluta do papa sobre todos os bispos e fiéis, mesmo em Constantinopla. Era uma eclesiologia totalmente nova para eles que lhes foi assim apresentada, e ela não podia que lhes parecer contrária, ela também, à tradição apóstolica tal qual eles tinham sempre percebido (compreendido). Os outros patriarcas orientais tomam consciência, e alinharão suas atitudes com aquelas de Constantinopla.
A data de 1054 é em realidade menos aquela de um cisma do que de uma primeira tentativa falha de reunião. Ninguém na época poderia imaginar que a separação que se produziria então entre aqueles que iriam se chamar Igreja ortodoxa e a Igreja católica romana iria se perpetuar através dos séculos.

DEPOIS DO CISMA 

          Os fatores essenciais da separação eram de ordem doutrinária; eles consistiam em concepções diferentes do mistério da Santíssima Trindade e da estrutura da Igreja. A estas juntaram-se as divergência de menor importância concernentes aos rituais e costumes da Igreja.
            No decorrer da Idade Média, o Ocidente latino vai continuar evoluindo em direções que se distanciarão mais ainda do mundo ortodoxo e de seu espírito. A grande teologia escolástica do século XIII elaborará uma doutrina da Trindade de uma remarcável tecnicidade conceitual, que não fará mais do que tornar o Filioque ainda mais inassimilável ao pensamento ortodoxo. É desta forma que será definido como dogma pelos concílios de Lyon (1274) e de Florença (1439) que se desejava entretanto os concílios de união.
         Ao longo destes mesmos séculos da Idade Média, o Ocidente latino abandona a prática da tripla imersão do batismo; os padres vão se contentar  a partir de então de derramar um pouco de água sobre a cabeça da criança. A comunhão do Precioso Sangue eucarístico é suprimida para os leigos. Novas forças de devoção aparecem, colocando o destaque de uma forma nova e quase que exclusivamente sobre a natureza humana do Cristo e (sobre) seus sofrimentos.  Muitos outros aspectos desta evolução poderiam ser anotados (remarcados).
         Num outro plano, os acontecimentos graves iriam tornar muito mais difícil a compreensão entre os povos ortodoxos e o Ocidente latino. O mais trágico foi sem dúvida o desvio (a falha, o erro) da IV cruzada que no final terminou por saquear  Constantinopla, à instalação de um imperador latino, ao estabelecimento de senhores francos que se talhavam (revestiam) de penhores  da sua gratidão no antigo Império romano. Frequentemente, os monges ortodoxos foram caçados  de seus monastérios e substituídos por monges latinos. Tudo isto sem dúvida não era premeditado; entretanto, estes acontecimentos eram a consequência (o prosseguimento) lógica da criação do Império do Ocidente e da evolução da Igreja latina desde o inicio da Idade Média. O Papa Inocêncio III, desaprovando as violências cometidas pelos cruzados, cria que a criação do Império latino de Constantinopla iria permitir o restabelecimento da união com os gregos. Ela iria sobretudo enfraquecer definitivamente o império bizantino, restaurado na segunda metade do século XIII, e preparar assim a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453.
            No decorrer dos séculos seguintes, as Igrejas ortodoxas, face a face com a Igreja católica, se colocam o mais frequente na defensiva, num clima de desconfiança e suspeita. A Igreja católica desenvolverá muito zelo em trazer de volta os “cismáticos orientais” à união com Roma. Uma das principais formas que tomou esforço missionário foi o que se chamou unitarismo. O termo “uniatas”, que implica numa nuance pejorativa, foi criado pelos católicos latinos da Polônia para designar as fracções da Igreja ortodoxa que foram convertidos aos dogmas católicos, mas conservaram seus próprios rituais, quer dizer os hábitos litúrgicos e disciplinares de sua Igreja de origem.
            O unitarismo foi sempre severamente julgado pelos Ortodoxos. Eles sentiram (experimentaram) a prática do rito bizantino pelos católicos como um tipo de mentira e de duplicidade, onde ao menos como uma causa de confusão, feita para engendrar o caos  (a confusão) nos fiéis ortodoxos.
            Desde o concílio Vaticano II, os católicos reconhecem geralmente que a via de união não passa mais pelo unitarismo. Eles querem (entretanto) não apenas promover o reconhecimento mútuo de sua Igrejas e da Igreja ortodoxa como “Igrejas-irmãs”, chamadas a se reunir sem se confundir. Um tal projeto se choca entretanto ainda com muitas dificuldades não resolvidas.
            A mais fundamental talvez é que a Igreja ortodoxa e a Igreja católica não têm os mesmos critérios da verdade. A Igreja católica justifica sua evolução secular, onde a Igreja ortodoxa veria antes uma infidelidade ao depósito recebido dos apóstolos, fazendo apelo a doutrina do desenvolvimento do dogma e das instituições, e a infabilidade do Papa. Nesta perspectiva, as mudanças (a)pareceriam como a condição de uma fidelidade viva à Tradição e como as fases  de um legítimo e necessário processo de crescimento, cuja homogeneidade é garantida pela autoridade do pontífice romano. Santo Agostinho já dizia a Julião d’Eclane: “Que te baste a opinião desta parte  do universo onde Deus quis coroar com um glorioso martírio o primeiro dos apóstolos” (Contra Julião, 1,13). A Igreja ortodoxa, ela, fica ligada ao critério “conciliar” formulado no século V pelo monge provençal São Vicente de Lérins: “ É preciso velar (vigiar) com o maior cuidado em ter por verdade o que foi acreditado em todo lugar, sempre e por todos” (Commonitorium, 2). Do ponto de vista ortodoxo, uma explicação progressiva dos dogmas e uma evolução dos hábitos eclesiásticos são possíveis, mas o critério de sua legitimidade continua sua recepção por todos. A promulgação unilateral como dogma, por uma Igreja particular, de uma doutrina como o Filioque é desde então sentida como uma ferida levada pelo resto do Corpo.
            Estas constatações não deviam dar a impressão de nos acharmos diante de um impasse, nem nos levar ao desencorajamento. Se é preciso renunciar ao sonho de um unitarismo (unionismo) fácil, se o momento e as circunstâncias da unidade plena permanecem o segredo da Providência e estão fora de nosso alcance, nos resta uma vasta obrigação a edificar (cumprir).
            A Europa ocidental e a Europa oriental devem cessar de se considerarem como estrangeiras uma à outra. O melhor modelo para a Europa do futuro não é o Império carolíngeo, mas a Romania indivisível dos primeiros séculos cristãos. O modelo carolíngeo nos remete à uma Europa já dividida, diminuída e grávida de todos os dramas que iriam dividir (rasgar) o Ocidente ao longo dos séculos. Ao contrário, a Romania cristã nos oferece o exemplo de um mundo diversificado, é certo, mas unido entretanto pela participação em uma mesma cultura e nos mesmos valores espirituais.
            Os males que o Ocidente sofreu e sofre ainda hoje vêem de uma larga medida, já a vimos acima, do que há demasiado tempo venceu da única tradição agostiniana, ou ao menos a privilegiou. O contato e as trocas entre cristãos de tradição latina e cristãos ortodoxos, numa Europa onde as fronteiras não devem mais ser abandonadas, podem auxiliar profundamente nossa cultura e lhe dar uma fecundidade nova.

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